“Empregado CLT ou não, tenha relevância para não ser descartavel.“

Como digo em minha palestra “acabou o emprego, mas tem trabalho”, a forma de ganharmos dinheiro com nosso trabalho está mudando profundamente cada vez mais. Não é apenas o resultado da crise brasileira e mundial, mas sim uma mudança de paradigma na forma de viver e trabalhar, fundamentada num novo consumo, onde o ter está dando lugar ao usar. Pode parecer que uma coisa não tem ligação com outra, mas tem.

A mente humana, nestes últimos 50 anos vem sendo condicionada a consumir insanamente, ter antes de ser, suprir necessidades internas com objetos externos, enfim, viver tem sido igual a ter. Com a aceleração do mundo, e a consciência de que esse modelo de consumo é insustentável, o mercado e o capitalismo precisaram achar novos caminhos, e iniciaram uma mudança profunda na forma de produzir. Começamos a ver que não precisamos ter alguns objetos, pois podem ser compartilhados entre muitas pessoas. Este movimento começou a décadas, onde um dos primeiros movimentos de compartilhar para racionalizar foram os transportes coletivos, e bem mais recente o taxi. O modelo de locação, seja de imóvel, veículos e outros, também foi o embrião deste entendimento que nem tudo precisa ser meu, pode ser nosso, usado por mais pessoas. O conceito de edifício, onde diversas famílias moram no mesmo empreendimento, onde tem que ratear custos, e conviver em áreas comuns, também prepararam de forma bem leve as pessoas para este momento iniciado a uns 10 ou 15 anos.

O uso vem trazendo agilidade, revisão para modelos de negócio menos rígidos e estruturas hierárquicas orgânicas, entre outras. Estabeleceu de forma definitiva o conceito de colaboração profissionalizada, muito bem exemplificada pelo modelo “just in time” japonês, que por precisar racionalizar armazenamento e melhorar produção, estabeleceu um sistema de logística perfeitamente integrado com o processo produtivo. Aliado a isso, temos a enorme facilidade de acesso a informação, democratizando o conhecimento, e também mudando a forma de trabalhar com os home offices por exemplo. A aceleração continua dessas mudanças, e a diminuição de recursos, obrigaram as empresas a se reinventarem, e com isso o emprego. Entretanto, infelizmente os profissionais não estão acompanhando a velocidade destas mudanças. Vou explicar porque.

O conceito de emprego surgiu por volta da Revolução Industrial, e veio para estabelecer relação entre pessoas que vendem sua força de trabalho por algum valor, remuneração, e pessoas que compram essa força de trabalho pagando algo em troca como salário. Estamos numa nova revolução, e com isso o conceito de emprego está ficando obsoleto. Mal entramos na era do conhecimento, e já estamos indo para a era da transcendência que exige que tenhamos que buscar novos caminhos, ir além, e para isso precisamos viver uma vida com sentido e propósito. Para facilitar a compreensão de como está o emprego, descrevo abaixo, minha visão dos três macros grupos de trabalho/trabalhador:

  • Trabalho serializado – Onde a forma de produzir é repetitiva (seja CLT, PJ ou free lancer), sem um valor agregado real. É o trabalho resultado apenas de habilidades técnicas, sem muita ou quase nenhuma tomada de decisão ou diferencial. Tendem a ser substituídos por tecnologia e robotização.
  • Trabalho corporativo – São os empregos executivos/gerenciais (CLT, PJ ou free lancer), normalmente em empresas com estruturas ainda convencionais. Onde o profissional está preocupado em cumprir suas metas, mais para manter o emprego, ganhar bônus, do que com a sustentabilidade do negócio. “Esses profissionais, que ainda são a maioria, estão mais preocupados com a própria carreira do que com a empresa”, disse o CEO de uma venture capital que já investiu quase 2 bilhões de reais no Brasil. Esses empregos de carreira, onde a estabilidade era palavra de ordem, estão diminuindo cada vez mais pela ineficiência hierárquica, baixa criatividade, pouca flexibilidade, e medo de arriscar até porque não foi educado para isso.
  • Trabalho empreendedor – Está em acelerado crescimento. Vem permitindo que tenhamos multinacionais com apenas um funcionário, startups competindo com empresas tradicionais, ou a chamada multi-renda, onde o profissional tem várias atividades, muitas vezes em várias empresas ou atividades rentáveis. É o profissional que funciona como se a empresa fosse dele, e se não se sentir assim, muda. Estes normalmente não se apegam a cargos e outros benefícios clássicos, e tem um modelo de vida sem prestações, ou qualquer coisa que não permita que tenha liberdade de mudar. Vivem o que podem agora, valorizando o uso, e a liberdade de produzir quando e onde querem, alinhados com os objetivos à serem alcançados. Tendem a se reinventar a todo momento, e usam tecnologia, robôs e ou qualquer coisa que viabilize suas ideias. Vale lembrar, que só funciona com um verdadeiro líder inspirador para se manter produtivo e criativo.

Falamos do emprego, mas onde entra a relevância ?

O Conceito de relevância refere-se ao que merece destaque, que é valioso, indispensável, e tem significado. Em contrapartida, o que não tem relevância pode ser descartado em algum momento, ou ter importância temporária. Então quando falamos de trabalho serializado, falamos de trabalho no mínimo com importância temporária, até que alguma tecnologia ou sistema robotizado possa substituí-lo. É o trabalho que tende comoditização, comprado por preço de atacado, impessoal, baseado nas especificações técnicas, ou o chamado currículo.

No caso do trabalho corporativo, a situação até alguns anos era um pouco diferente, mas daqui para frente tende a se tornar igual, pois os modelos de gestão baseados na revolução industrial sem autonomia, motivação, e baseado numa relação de disputa patrão empregado que só serve para fortalecer sindicatos, estão minguando. Estes dois grupos estão se fundindo, e por este motivo, vemos legiões de executivos se juntando a massa de desempregados, e parece que esperam um “super-homem” para salvá-los desta situação.

O terceiro grupo também está em transformação ou em formação, pois os jovens empreendedores estão envelhecendo, formando família, e com isso começam algumas preocupações em buscar algum tipo de estabilidade. A diferença é que a estabilidade deste grupo é diferente, é baseada em sua capacidade de viver em ambientes colaborativos e criativos, trabalhar por demanda, e valorizam a vida em grupo. Por participarem de vários grupos, e estarem sempre atentos, enxergam oportunidades para oferecer, receber e criar trabalho.

O fato é que a empregabilidade mudou, o emprego como conhecemos está acabando, e precisa acabar. Precisamos de pessoas, que percebam que sua relevância profissional depende de três posturas/atitudes:

-Ter um diferencial baseado em criatividade e uma dose de ousadia, para reinventar e inovar produtos e serviços, e perceber mudanças do mercado.

-Ter uma participação ativa em ações de impacto social, e grupos de relacionamento pessoal e profissional. Num baseado na exposição das redes sociais, você é percebido pelo que é na empresa e na vida.

-Ser cumplice na relação profissional, e o entendimento de que não existe mais trabalho se a empresa não for sustentável, e com isso desenvolver a capacidade de se reinventar sempre que o mercado, ou consumidor solicitar.

Se você quer um emprego com carteira assinada, benefícios, estabilidade, e outros devaneios, aguarde sentado, ou se conseguir um tenha a certeza que ele não durará muito tempo. Mas se quer produzir de forma criativa e colaborativa, e trocar o sobrenome corporativo pela alma do negócio, terá chance de ter sucesso neste novo mundo.

A verdade, é que estamos vivendo um momento de profundas mudanças no Brasil e no mundo, e este momento ainda vai se estender por longos anos, e na realidade não deverá terminar nunca. Abra os olhos para fora vendo esta nova realidade, e para dentro se conhecendo melhor como pessoa. Só assim poderá se libertar do pesadelo do desemprego, e acordar para esta nova realidade. É hora de mudar o “mind set”, de viver a certeza de que tudo vai mudar toda hora, e que a felicidade também é trabalhar no que faz sentido, naquilo que dá prazer. É um momento difícil, pois toda mudança é difícil, mas uma oportunidade fantástica, de deixar de ser coadjuvante para ser protagonista destes novos tempos.

Quer ter relevância no mercado de trabalho ? Faça diferente fazendo a diferença no seu trabalho, na família, e na comunidade. Participe de grupos de network para fazer conexões que gerem oportunidades, não só de emprego ou trabalho, mas também de fazer amigos, pois quem não é visto não é lembrado. Para não ser descartável, mude seu currículo mostrando quem você é, e não só o que você faz. Como diz uma empresa sueca: “Contratamos sorrisos e treinamos habilidades”. Não dá mais para gastar tempo e dinheiro contratando pelas habilidades, e demitindo pelo caráter. Desapegue, sorria, tenha valores morais inabaláveis, e seja o exemplo que quer dar a alguém. Mas principalmente ame e seja amado, pois o mercado cada vez quer contratar pessoas, pois máquinas eles compram ou trocam.