“Nos dias de hoje, o que une ou separa as pessoas não são as diferenças, mas sim o nível de ignorância.”

A polêmica frase acima, diz que agregação ou conflito de pessoas e povos não acontece pelas diferenças, mas sim pelo seu nível de desinformação. Vale refletir sobre o assunto, pois sendo ela verdadeira, só vamos resolver esta situação com educação. Educação de uma forma bem simples, é o processo de socialização dos indivíduos. Envolve sensibilização cultural, comportamental, e é materializado através de diversas habilidades e valores, que refletem mudanças intelectuais, emocionais e sociais de um individuo ou grupo. Com este entendimento, podemos dizer que educação é a formalização da forma de convivermos em ambientes, que em essência sempre algum tipo de diversidade. Como estamos evoluindo do individual para o coletivo, olhar cada vez mais o todo, conviver com o diferente, pode ser desconfortável, desagradável e em alguns casos até insuportável. Esta evolução da convivencia, envolve respeito e compreensão, pois compreender é a disposição para entender as atitudes e os sentimentos de alguém, que por sua vez está ligada a tolerancia, que é a atitude que uma pessoa tem para com aquilo que é diferente dos seus valores. Pode parecer complexo, mas pode ser resumido em, olhar o diferente como algo à ser assimilado, uma forma de ampliarmos nossa visão de mundo e das pessoas.

Muitos dizem que o problema do Brasil e do mundo está num sistema educacional obsoleto, e para poucos. Concordo, mas acredito que temos um problema ainda mais primário, que é a ignorância, palavra que vem do latim ignorantĭa, que é a falta de conhecimentos em particular ou de cultura em geral. Não preciso dizer que com a internet, google, e outras ferramentas tecnológicas, temos acesso a uma quantidade de informação inimaginável. Acumulamos mais conhecimento nos últimos 50 anos que na história inteira da humanidade. Então de que tipo de ignorância estamos falando ? Da falta de conhecimento convencional ensinado nas escolas e faculdades ? Acredito que não, pois na realidade somos ignorantes comportamentais, mal educados na forma de conviver, e desinformados de como o mundo realmente funciona em relação a influinciar e ser influênciado. Acredito que o uso do conhecimento de uma forma geral está equivocado em seu propósito, pois em última instancia, o mercado se preocupa com impacto que novos serviços ou produtos podem ter mais na rentabilidade, do que pela melhoria na vida das pessoas. Acho que vale aqui refletirmos o velho ditado que diz: “Dinheiro é resultado de um bom trabalho”. Se fizermos algo que melhore a vida das pessoas, com certeza teremos lucro, e com propósito.

Conhecimento é poder, mas o exercício deste poder divorciado da ética, da visão de longo prazo, melhoria da sociedade, e do senso de limites, revela-se uma receita para degradação de seja lá o que este poder possa exercer ou influenciar. Somos ignorantes na arte de compreender, e por consequência temos índices muito baixos de INC-Índice do Nível de Convivência (ver texto anterior deste blog). Por este motivo, na minha visão, temos tantos conflitos diários entre países, grupos, famílias, e principalmente no trabalho. Essa baixa qualidade de convivência, diminui nossa capacidade de produzir, pois fica sem significado, tensa e desgastante. É muito mais provável que um pedreiro que constrói casas para as pessoas morarem ser produtivo, do que aquele que acredita que seu trabalho é apenas assentar tijolos. Produzir precisa ser inspirador, precisa ter valor real de transformação na vida das pessoas de forma direta ou indireta. Senão tiver, em essência não precisa ser feito, nem ninguém comprar. Como disse Gandhi ao olhar as vitrines de uma loja em sua visita a Londres: “Estou vendo nestas vitrines tudo o que não preciso para ser feliz”. Com o custo cada vez mais elevado de publicidade e marketing, a melhor forma de divulgar um produto é sendo relevante, levando algo que seja produtivo, inspirador ou com significado na vida das pessoas. O resto é consumismo.

“A racionalidade cartesiana como princípio unificador, se mostrou eficiente para um mundo de máquinas, mas totalmente vazia para um mundo de seres humanos.” Está frase resume o motivo da degradação em curso em nossa sociedade, principalmente nas atividades produtivas. Degradação tem origem no latim degradatĭo, esta relacionado a desonra ou humilhação, resultado da “privação” ou “desvalorização” da mão de obra. Essa desvalorização tem influência, desde funções operacionais, até cargos de alta liderança. Essa degradação leva a corrosão da vontade de colaborar e conviver. Alimenta o individualismo, o “salve-se quem puder”, faz da violência urbana algo vulgarizado, e uma visão econômica onde a preservação do capital se sobrepõe a da vida humana. Não por acaso, nossos índices de infarto, AVC, depressão e suicídios vem aumentando, apesar dos enormes avanços na área de saúde física e emocional. Precisamos de um capitalismo que opte pela vida, pois só existe mercado se existir consumidor. É hora de interrompermos esta pintura grotesco, com tons cinzas caracterizados pela baixa autoestima. Precisamos revisar a função do capital, resignificar o chamado mercado, valorizarmos a vida, e desenvolvermos um ambiente que incentive uma convivência que produza felicidade.

Isso tudo parece bobagem, mas o capitalismo é um sistema sócio-econômico, e não apenas econômico. Diz que a produção é privada com fins lucrativos, e isso é ótimo, pois pode gerar prosperidade. Nosso problema, é que não evoluímos as bases do capitalismo, ainda vivemos um capitalismo feudal, que alimenta abismos sociais inaceitáveis, uma tendência a uma enorme concentração de renda. Chegamos numa tal distorção gerada por estes abismos sociais, que estamos sendo privados de usufruir dos bens que adquirimos. Quem pode andar de carro conversível em São Paulo sem medo? Até andar com um celular na mão pode ser considerado um suicídio, pois já se mata por um celular. Esta situação gera uma escuridão sócio-comportamental, que não é só um caso de polícia, mas sim educacional neste sentido mais amplo que dei. Precisamos rever os conceitos de Adam Smith, pai do capitalismo, que diz que num sistema capitalista, os lucros podem ser concentrados como distribuídos de acordo com as condições particulares de cada sociedade. A participação nos lucros nas empresas, bem como a proliferação de micro e pequenos negócios mostra que estamos evoluindo o capitalismo. Podemos e devemos ter milionários, mas será que necessitamos de bilionários. Acredito na meritocracia, mas se analisarmos as bolsas de valores, será que elas hoje realmente promovem meritocracia baseada em produção real, ou apenas em movimentações virtuais e especulações.

Não sou contra nada, mas acredito que precisamos rever tudo. Conhecimento é poder, e sem ética cria um caos educativo-comportamental. Leva para o passional o conflito de classes, base da degradação do sistema produtivo, e consequentemente de uma geração de riqueza que não funciona em função do ser humano. Tudo que é resumido a uma função puramente utilitária e instrumental, não é humano, é mecanicista. Como diz Raj Sisodia co-escritor do livro capitalismo consciente, e empresas humanizadas, estamos caminhando para a era da transcendência, de ir além de nossos conhecimentos ferramentais, para uma sabedoria em benefício do todo, incluindo a natureza.

Como empreendedor a quase 30 anos não poderia ser contra a propriedade privada, o lucro, mas também sou a favor de viver numa sociedade que possa sair de casa sem medo de ser assaltado e morto por um menor de idade que poderia ser meu neto. Sou a favor da democracia, que na essência tem origem no grego demokratía que é composta por demos (que significa povo), e kratos (que significa poder). Neste sistema político, o poder é exercido pelo povo através do voto. Entretanto, neste caos ético que vivemos no Brasil, vamos continuar votando no menos ruim, no que parece ser menos corrupto. É hora de nos mobilizarmos, de nos indignarmos não somente com os políticos, mas principalmente com a estrutura do estado federal, estatual e municipal, com os níveis de impostos, e remanejarmos estes recursos para a produção. Sem fazer muita conta, se reduzirmos e melhorarmos a eficiência da gestão pública, teremos enormes recursos para cobrir a previdência, e outros buracos.

Precisamos iluminar a ignorância política e econômica, rever inteiramente o tamanho do estado, o nível de impostos, e a qualidade de nossas leis que favorece a impunidade. Precisamos de uma educação comportamental baseada em valores nobres, para todos os cidadãos, que nos permita desacelerar a degradação produtiva e moral que estamos vivendo, e desenvolver um capitalismo mais voltado ao ser humano, do que ao capital. Esta reforma completa, que pode e deve ser feita em etapas, e já foi iniciada, trará valorização do trabalho, significado a produção, lucro com propósito, bem-estar a todos, e uma sociedade mais justa e segura.

É um desafio, mas tenho certeza que podemos fazer melhor!