“Fazer diferente, fazendo a diferença!”

O editorial da revista Veja desta semana, diz que temos complexo de vira-lata, isto é, que nossa população tem baixa autoestima enquanto pais. Sempre o que é de fora é melhor, e o que fazemos ou não vai ser bom, ou não vai dar certo.

Sempre me incomodei com a mania das pessoas usarem referências estrangeiras para denegrir o Brasil. Sim, temos problemas profundos em todas as áreas, mas também temos algo que o mundo não tem, algo que vem aflorando, mas tínhamos dificuldade de nomear. Somos vira-latas.

Vira-lata quer dizer segundo a veterinária, cão ou gato sem classificação de raça, chamado SRD (Sem Raça Definida). Na realidade esta desclassificação ou não classificação, é porque esses animais não tem aparência de nenhuma raça conhecida. Por este motivo, dizem que eles são inferiores, que tem menos valor. Satirizando, diria a eles como Coach que na realidade eles são diferentes, mas nem por isso inferiores ou com menos valor, pois os vira-latas também amam seus donos, adoram ser bem tratados, são criativos para sobreviver, adaptáveis, e na sua maioria leves e alegres. Novamente, fazendo uma referência ao povo brasileiro, precisamos entender que somos vira-latas, temos todas essas características acima, somos diferentes das raças conhecidas, e num mundo em constante mudança, isso é muito positivo pois como dizia Darwin: “Não é o mais forte que sobrevive, mas sim o que se adapta melhor as mudanças”. Num mundo onde tudo tende a virar commoditie, é hora de “fazer diferente, fazendo a diferença”. Terá cada vez mais valor, quem traz novas soluções, quem tem uma visão de mundo mais ampla, quem é criativo. É hora de viver uma alegria responsável, que vai tomando o lugar das posturas carrrancudas e fechadas. Sem alegria tudo é mais dificil, e ser alegre não é ser incompetente ou irresponsável, mas saber que produzimos melhor num ambiente leve e cordial. Isso é viver de forma sustentável.

Este editorial da Veja, lembra que o complexo de vira-lata vem dos anos 50, quando o dramaturgo Nelson Rodrigues o definiu como “a inferioridade em que o brasileiro se coloca voluntariamente, em face do resto do mundo”. Dizia sermos um povo que não reconhece o próprio valor, mesmo quando as coisas são legais e andam bem. Como vira-latas, tentamos nos primeiros séculos de nossa existência enquanto país, copiar modelos europeus, e a partir do meio do século passado, o modelo americano. Esses modelos são ótimos, eficientes, mas não tem a nossa cara, nosso jeito. Precisam ser adaptados pois somos vira-latas, temos uma forma de viver e ver a vida diferente. Funcionamos diferente. Somos singulares, únicos, inventivos, até irresponsáveis as vezes, mas mostramos na Olimpíada que sabemos “a la Brasil” fazer bem feito e com menos dinheiro quando queremos, mesmo incluindo uma boa parte de desvios ilícitos de dinheiro. Não somos melhores ou piores, apenas diferentes, não copiáveis.

Precisamos melhorar nossa autoestima, e acreditar que podemos aprimorar e acreditar em modelos mais abrangentes, sem pedigree, que é um documento que certifica a ancestralidade e características de uma raça. Somos um conjunto de pedigrees, de raças que ao longo dos séculos vem se miscigenando e criando uma raça vira-lata, diferente até entre si, centenas, milhares e porque não milhões de tipos de personalidades vira-latas. Somos uma raça sem raça, que valoriza e convive com o diferente, e define um novo tipo de pedegree que “mata um leão por dia”, e com isso aprende a viver a adversidade. Que faz das dificuldades, oportunidades de achar novos caminhos, de “virar latas para achar comida” de forma natural e alegre. É isso mesmo, os vira-latas são inquietos, irresponsáveis, mas quando querem e se conscientizam de seu valor, quando se propõem a fazer algo que faça sentido, fazem diferente fazendo a diferença. Fazem diferente na forma de colaborar e de conviver. Se comprometem pelo coração, e não pela razão, e por isso precisam de desafios que façam sentido, que tenham um propósito inspirador. Vivemos de motivação, pois somos empolgados. Questionamos tudo, reclamamos por costume, mas nos unimos quando é preciso.

Sou empreendedor a mais de 30 anos, e não me lembro de um momento onde não tivéssemos algum tipo de crise neste pais. Sempre achamos uma saída, e esta forma de viver superando desafios nos tornou fortes, apesar de ainda não nos termos dado conta disso. Com isso, estamos construindo uma democracia e um capitalismo vira-lata, diferente, sem pedigree, meio anárquica para os padrões convencionais, mas que como as start-ups funciona. Também já temos consciência que esporte e samba, não são analgésicos para a corrupção e a política de interesses escusos.

Acredito que somos vira-latas com enormes desafios a superar, mas tudo que é novo, diferente, dá mais trabalho de desenvolver e construir, pois necessita pensar “fora da caixa”, questionar modelos, os pedigrees internacionais. Quando o mundo acha que vamos morrer de fome, viramos as latas sujas de nossas instituições, elevamos nossa autoestima, limpamos as sujeiras com as operações lava a jato, e achamos recursos para seguir. Temos que aproveitar os pedigrees como referência, mas o mundo atual precisa fazer uma revisão desses padrões consolidados, e se reinventar, pois os caminhos que nos trouxeram até aqui, com certeza não nos lavarão daqui para a frente. Com criatividade, humanismo, competência e uma certa dose de irreverencia eficiente, vamos aos poucos estabelecendo o jeito vira-lata brasileiro de ser e viver.

Você pode não concordar comigo, mas olhando gestão de pessoas, cada vez mais as empresas valorizam menos os pedigrees, ou currículos técnicos, e valorizam a ética e propósito. Valorizam quem sabe “virar latas”, e achar soluções para melhoria da produtividade e lucratividade. As habilidades e competências continuam sendo muito importantes, mas caráter passa a ser determinante para um mundo que quer produzir de forma sustentável, isto é perene. A novo conceito de estabilidade, tem que ser baseado numa visão de longo prazo, e não em vantagens de curto prazo, ou os atalhos da corrupção. Acreditem, até a ganância e o mal caratismo, também chamado de jeitinho brasileiro, está sendo virado de cabeça pra baixo. Vamos virar mais latas ?