“Salário deveria dar a percepção de que em troca do meu trabalho,
recebo bens e serviços que façam sentido para minha vida.”

A palavra “profissão” no dicionário quer dizer: “Atividade ou ocupação especializada, da qual se podem tirar os meios de subsistência”. A pirâmide das necessidades de Maslow, diz em sua base, que se atendermos as necessidades básicas, poderemos subir para necessidades mais sutis, como autoestima, socialização, segurança e realização. Como venho dizendo em minhas palestras, na realidade essa pirâmide precisa ser invertida, pois sem um propósito maior, sem esperança, e motivação realizável, nenhum ser humano desenvolverá plenamente seus potenciais, e muito menos viverá a sensação de felicidade.

As empresas e profissionais que tem me ouvido e lido, me perguntam como fazer real essa inversão de necessidades, pois hoje a maioria das pessoas buscam subsistência através da remuneração promovida pelo trabalho profissional. Analisando este questionamento, e observador como sou, percebi que na realidade o que mais incomoda inconscientemente as pessoas, não é ganharem para sobreviver e ficarem amarradas a um círculo vicioso de dependência do salário como disse no meu texto “Reflexão sobre a dependência do trabalho”, mas sim a sensação de que “vendem” o seu trabalho profissional, e que este valor não supre as necessidades básicas para que possa inspirar profundamente sua vida, e conseguir olhar para as necessidades mais sutis da vida, que trazem o sentido de felicidade e plenitude.

O dinheiro é apenas um meio de viabilizar em larga escala, o chamado “escambo” usado no início das transações comerciais de compra e venda de produtos e serviços, e é definido como: “transação ou contrato em que cada uma das partes entrega um bem ou presta um serviço para receber da outra parte, um bem ou serviço em retorno em forma de crédito, sem que um dos bens seja moeda”. Com a entrada do dinheiro e o gigantismo das empresas e do mercado, aos poucos fomos perdendo a noção do nosso lugar e nossa real importancia como profissional, e por consequencia o valor do nosso trabalho. Temos a sensação de que o que recebemos no “escambo” entre nossos serviços e o salário (que nos dá uma quantidade de dinheiro) para comprarmos o que nos supre realmente, não supre. Fica uma sensação de que esta faltando. Em resumo, perdemos a noção de quanto realmente vale o nosso trabalho, e isso acontece tanto do lado de quem contrata, quanto de quem é contratado, pois o dinheiro virou mais do que um intermediador, para ser algo que diz gerar riqueza, mas que na realidade gera especulação e ganância. O dinheiro passou a ser “trabalho ilusório”, passou a ser “serviço” que não gera produtividade.

Existem algumas coisas que envolvem a sensação de que o retorno do meu trabalho não é justo, como o consumismo, onde “gasto” para comprar o que muitas vezes não preciso e continuar a trabalhar naquilo que não me traz satisfação, ou para amenizar minhas angustias através de compulsões. Não entrando neste mérito e outros que vou abordar em outros textos, vou me ater a comentar sobre o que citei acima, sobre a sensação do valor da transação de “troca”, isto é, entre o “serviço prestado x salário recebido“. Nesta relação de mercado, como já disse, o profissional cada vez mais sente que a “venda” de seu serviço não consegue atender suas necessidades para ser feliz, e de outro lado, quem contrata os serviços não consegue disponibilizar retorno financeiro maior. Então a equação é resolver a relação “serviço oferecido x retorno percebido”. Esta relação é fortemente subjetiva, e depende do nível de consciência , cultura, idade, estado cívil, e outros componentes que vão se alterando ao longo da vida, pois somos seres que mudamos nossas necessidades ao longo da vida, e muitas vezes não percebemos.

Neste momento podemos trazer o conceito de benefícios, algo cada vez mais valorizado pelos profissionais, justamente por ser uma forma de perceber necessidades atendidas de forma mais paupável, mas concreta, seja num vale refeição ou vale supermercado que atenda as necessidades de alimentação, tanto quanto nos planos de saúde. De outro lado, o mercado vem oferecendo cada vez mais outros tipos de “benefícios”, como clube de viagens e outros, permitindo que ítens geradores de bem estar, lazer, cultura, e recentemente a possibilidade de experiências radicais, que nos permitem testar limites, elevar a adrenalina, que em alta dá a sensação de estar vivo, de estar vivendo algo que valha a pena. Aproveitando o gancho, esta adrenalina liberada neste tipo de experiência, mostra que temos o risco em nossas veias, gostamos de nos testar, vivemos para experimentar o novo, porém sem ultrapassar o limite individual que é diferente em cada um.

Não tenho a solução, mas tenho oferecido alguns caminhos para profissionais e empresas começarem a ajustar suas políticas e investimentos em pessoas, de uma forma que possam atender através de benefícios, atividades empolgantes, ou vivências de ampliação da consciência e alimento da alma, esta sensação de que não estão “vendendo” nosso trabalho, ou muitas vezes a alma, por um valor que “não valha a pena”, que não vibialize viver a vida como deve ser vivida. Ainda tenho que conversar e pesquisar muito.
Para concluir: a única certeza que tenho, é que precisamos achar uma forma de dar sentido as nossas vidas o mais rápido possível, pois como disse um cientista político da Globonews depois do atropelamento em massa em Nice na França – “As idéias radicais estão suprindo principalmente nos jovens, um espaço aberto pela falta de uma vida com mais sentido, e um propósito maior”.

Estou engajado em “iluminar o terrorismo” com conteúdos e práticas que inspirem os jovens à se engajarem no mercado de trabalho e produzirem, tendo em troca uma remuneração que viabilize experiências que valham a pena, que tenha sentido, pois se for apenas para subsistência, veremos cada vez mais jovens sem esperança, buscando no radicalismo um sentido de vida distorcido.